10 de mar de 2014

Luana lia livros escondida porque a sua mãe achava que ela não deveria, sendo tão novinha, ler aqueles romances, cheios de sensualidade, impróprios para a sua idade. A mãe achava que, enquanto criança, melhor seria se conhecesse os contos de fada, mas Luana nunca tinha tido ninguém que lêsse para ela e, de certa forma, agradecia por isso. Preferia os romances.

Seu maior prazer era ler deitada na rede que ficava na varanda do apartamento. Décimo andar, primeiro capítulo. Tinha das 13 até as 18 horas para viajar nas histórias, porque depois dessa hora, seus pais chegavam, a enchiam de perguntas, jantavam e liam jornal, que Luana, aos 8 anos, ignorava. Preferia os romances.

Depois do jantar e das tarefas da escola rapidamente feitas, ela ia pro quarto, dizia que ia assistir desenho. Lá, no seu quarto branco e lilás, decorado com motivos infantis e algumas bonecas, ligava a TV, trancava a porta e tirava da mochila um livro intitulado Deserto. Luana nunca conheceu um deserto, morava a dez minutos da praia, mas comprou o livro com a mesada, pensando que talvez fosse instigante uma nova história num cenário que ela ainda não conhecia.

Luana sentia-se esquisita quando torcia pelos personagens, quando chorava com eles, quando desejava tirá-los de cena, quando sentia o seu coração apertado frente a uma expectativa minuciosamente descrita, tão bem escrita pelo autor. Talvez fosse bom se ela tivesse lido alguns contos de fada, alguns contos, mas ela não saberia se sentiria com esses gêneros tamanha emoção na mistura de sentimentos e de acompanhar a vida das pessoas que desvendava a cada passar de página, por isso, desconhecendo outra literatura, preferia romances.

E quando não entendia alguma palavra, não ia atrás dos dicionários, procurava compreender dentro do contexto. Mesmo assim, ficava inquieta com elas. Não poucas vezes Luana era repreendida por usar palavras impróprias em situações ainda mais impróprias. Aí ela aprendeu que as palavras nem sempre tinham o mesmo significado. Lascívia, por exemplo, jamais poderia ser dito numa conversa com os seus pais que, arregalavam os olhos estupefatos. Mas ela adorava aquela palavra, achava que soava bem... e não entendia porque, um romance pode ter livremente essa palavra e nele cabe tão bem, enquanto seus pais a engoliam seco. Concluia que seus pais deviam ler menos jornais, talvez ela pudesse ler para eles, antes de dormir algum trecho do seu novo livro, Deserto. Literatura instigante igual aquela não havia. Por esses motivos, não podia dar preferência a outro gênero literário que não fossem romances.

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